Depois de na semana passada ter aqui falado em produtos finos e da melhor qualidade que o futebol, particularmente o SL Benfica, tem vindo a receber, venho esta semana falar de material a granel.
Foi com algum espanto que vi, esta semana, o Sporting CP recorrer a mais um engenhosa operação de engenharia financeira envolvendo a Sporting SAD e a Sporting SGPS. Um clube que se livrou tão facilmente do engenheiro (estou a falar do engenheiro do penta e não do falecido engenheiro Edgar Cardoso, pois este não deu tréguas à velha pala de Alvalade até a ver consolidada), não pára de fazer impressionantes obras de engenharia.
Nos termos da lei, a Sporting SAD informou ter posto fim ao Contrato de Associação de Interesses Económicos (CAIE) que mantinha, desde 19 de Dezembro de 2001, com o First Portuguese Football Palyers Fund, SA (eles queriam dizer players e não palyers, mas o inglês deles é pior que a relva do Alvalade XXI). Até aqui tudo bem, pois estão a ser congruentes, já que o objectivo deles parece ser querer pôr fim a tudo.
Este Fundo tem permitido ao Sporting CP fazer umas engenharias interessantes. Não será por acaso que o Comendador Joe Berardo gostaria de ter um Fundo destes no SL Benfica (assim comprava as acções a um preço mais baixo). Desde 2001, no âmbito do CAIE (a sigla é interessante, pois dá a ideia do CAI, CAI, por aí abaixo, até à derrocada final. Por isso é que digo que o que CAI CAIE VAI PARA O FUNDO) a Sporting SAD e o Fundo celebraram vários Contratos de Investimento (CIs) que tiveram por objecto os direitos desportivos de vários jogadores, uns adquiridos pela Sporting SAD a outros Clubes, outros da formação da Sporting SAD.
A verdade é que, à data da sua extinção (15 de Outubro de 2007), o fundo e a Sporting SAD só tinham em vigor CIs relativos a direitos desportivos de jogadores desconhecidos: Yannick D’Jaló, Marcelo Labharte, Paulo Sérgio, João Moutinho e Carlos Saleiro. Ainda assim, a comparticipação do Fundo na aquisição dos direitos desportivos desses jogadores ascende a 1 749 000€, valor que, correspondendo, em teoria, a uma parte dos direitos desportivos desses jogadores, na verdade, é muito superior ao valor dos passes desses jogadores (todos juntos devem valer um milhão de euros, isto sem contar que, muito provavelmente, o Sporting CP ainda vai ter de pagar a alguém que lhes fique definitivamente com o Marcelo Labharte).
Como à data da extinção a Sporting SAD ainda devia ao Fundo o valor líquido de 765 397€ (vá-se lá saber porquê! Mas, para mim, deve ter sido uma indemnização compensatória acordada para que o fundo aceitasse os direitos desportivos de jogadores deste calibre), e como a Sporting SAD, para revogar o CAIE e os CIs, pagou ao Fundo a quantia de 2 474 603€ (apesar dos direitos desportivos transferidos terem sido avaliados em 1 749 000€), a Sporting SAD teve de pagar ao Fundo 3 240 000€. Ou seja, em pouco tempo, o fundo lucrou 42%. Percebo agora que o Comendador Joe Berardo queira um fundo destes. Nem na bolsa se ganha dinheiro assim.
Mas isto não ficou por aqui. E nem um engenheiro verdadeiro faria melhor.
Recorrendo ao crédito que a Sporting SAD detém sobre a Sporting SGPS, esta última assumiu a dívida da Sporting SAD para com o Fundo, no valor total de 3 240 000€. A Sporting SGPS e o Fundo acordaram (embora haja quem garanta que o Sporting continua a dormir) que o pagamento fosse feito através da entrega de 1 620 000 acções da categoria B da Sporting SAD, detidas pela Sporting SGPS e correspondentes a 7,36% do capital social da Sporting SAD. Ou seja, continhas feitas, o Sporting vendeu as acções a 2€ cada uma e ainda ficou “aliviado” de 7,36% das acções que passaram para as mãos dos donos do Fundo. O Joe Berardo tem razão. Se os outros clubes já têm os seus Berardos e ninguém fala deles, porque não há-de o SL Benfica ter o seu?
Mas isto ainda não ficou por aqui.
Como as acções com que a Sporting SAD pagou ao Fundo estavam penhoradas, a Sporting, SAD aceitou prestar aos Bancos financiadores do Project Finance uma garantia alternativa que consiste na cessão com escopo de garantia de todas as receitas presentes e futuras detidas ou a deter pela Sporting SAD até ao montante máximo de 3.240.000€ emergentes da cedência ou transferência dos direitos desportivos e de imagem de jogadores a determinar pelas partes. Não me admirava nada que a Sporting SAD fosse agora ceder aos bancos as mesmas percentagens dos direitos desportivos dos jogadores mencionados acima. Ou seja, a Sporting SAD vendeu-os (ou parte deles) por 1 749 000€,voltou a comprá-los por 3 240 000€. Volta a vendê-los por 3 240 000€ e daqui a uns tempos, aplicando a mesma taxa, volta a comprá-los por 4 600 800€. De Fundo em Fundo se chega ao fundo.
O First Portuguese Football Player’s Fund é indirectamente dominado por Duarte Maia de Albuquerque D’Orey e Tristão José da Cunha Mendonça e Menezes enquanto titulares da totalidade do capital da OREY INVERSIONES SLu, a qual, por sua vez, detém uma participação de 15,5% da SOCIEDADE COMERCIAL OREY ANTUNES, Sociedade Aberta, SA e a totalidade das acções da TRIÂNGULO-MOR CONSULTADORIA ECONÓMICA E FINANCEIRA, S.A., por sua vez titular de uma participação de 55,48% na SOCIEDADE COMERCIAL OREY ANTUNES, S.A., sociedade aberta, sociedade esta detentora da totalidade do capital social da OREY FINANCIAL SGPS, S.A. que detém a totalidade do capital da OREY MANAGEMENT B.V. que detém a totalidade da OREY INVESTMENTS N.V. a qual detém a totalidade do capital da FP-FOOTBALL PLAYERS FUND MANAGEMENT LTD a qual é titular de 100% das “found shares” da SOCIEDADE.
Curiosamente, no mesmo dia 15 de Outubro em que cessou o CAIE, a Sociedade Comercial Orey Antunes, S.A. informou que a sua participada Orey Shipping, S.L.U. chegou a acordo para o estabelecimento de uma parceria com a Marítima Del Mediterráneo, S.A. (Marmedsa) para o desenvolvimento do negócio de carga geral no Porto de Bilbao. Recorde-se que este porto é um dos mais importantes portos na Península Ibérica, sobretudo no que respeita à transacção de produtos siderúrgicos, papel e plásticos.
Como a Sociedade Comercial Orey Antunes, S.A. informou que a parceria acordada tem também potencial para ser estendida a negócios portuários de carga convencional em outros países como o Brasil, Portugal e mercados emergentes em África, pensei logo que, dadas as circunstâncias, o Sporting estaria envolvido nisto e que estava em curso uma estratégia para dominar o mercado de recrutamento das jovens promessas de Portugal, Brasil e África. Mas amigos bem informados já me garantiram que o único interesse do Sporting nisto é o acesso facilitado aos plásticos e ao papel do porto de Bilbao. Isto porque terão resolvido plastificar o novo relvado de Alvalade e, dadas as quantidades consumidas, adquirir um enorme stock de papel higiénico para o Alvalade XXI.
Carissimo…
Grande artigo… e o final é simplesmente delicioso!!!!
Este fundo que pertence a uma empresa das Ilhas Cayman, que por sua vez pertencia a uma outra empresa de Curação que por sua vez pertencia a uma empresa holandesa, que por sua vez pertencia a uma empresa de Madrid foi uma verdadeira negociata.
Como é que eu nunca consigo subscrever fundos destes?
Já agora sabias a do clube que em Agosto de 2006 dizia estar a chegar aos 100 mil sócios e agora ao que parece só tem 83 mil, menos 2 mil e quinhetos do que em Outubro de 2006?
http://oantitripa.blogspot.com/
Comente by vermelhovzky — 20/10/2007 @ 16:17
Sabia. Já tinha visto no Antitripa.
Ainda não li o relatório e contas desse clube.
Cá para mim, o LFV deixou de fazer parte do caderno de sócios.
E a teoria de que isso de deve à limpeza de canídeos levada a cabo pela CMP também não é de enjeitar.
Comente by peixoto — 20/10/2007 @ 18:07
O Benfica no mercado
http://atribulacoeslocais2.blogspot.com/
Comente by bomdebola — 20/10/2007 @ 23:57