O LADO NEGRO DA FORMAÇÃO

O Benfica, pelo menos nos últimos anos, está longe de contituir um exemplo na formação de jogadores de futebol.

Já o Sporting e o Boavista parecem ser, em Portugal, exemplos a seguir.

Na Europa, as melhores escolas de formação de jogadores têm sido o Ajax e os clubes espanhóis (designadamente o Real Madrid, o Athletic Bilbao, a Real Sociedad, o FC Barcelona, o Sporting de Gijón e a União Desportiva de Las Palmas). Nos últimos anos, alguns clubes franceses (sobretudo o Olympique Lyon  e o Nantes) têm vindo a lançar escolas de formação de primeiro nível e com resultados muito positivos.

A questão é que a formação, sendo fundamental, não vale sempre o mesmo. Nem sempre é bem avaliada. E o seu lado negro tende a ser esquecido. Uma análise mais detalhada mostra alguns dados interessantes…

Por um lado, a formação é cada vez mais uma área importante do futebol. Apesar de “jogador de rua” continuar a ser um produto abundante e, frequentemente de grande qualidade, muito rapidamente esses jogadores são referenciados e integrados em escolas de formação. É isso que acontece em países que são viveiros de futebolistas “nascidos na rua”, como o Brasil e a Argentina, por exemplo. A importância dos índices físicos dos atletas, a musculação do corpo, a empresarialização e a cientificidade crscentes do futebol, tornam a formação fundamental. Como diz Scolari, a diferença entre a maturidade e a capacidade de expressão dos jogadores portugueses e brasileiros reside no percurso da sua formação enquanto jogadores. E isso conta tanto como as capacidades futebolísticas inatas, que, em regra, abundam mais no Brasil.

Mas a formação tem contrapontos importantes. A formação é cara e tem vindo a encarecer por ser cada vez mais competitiva. Clubes como o Ajax, uma importante escola de formação, que lançou jogadores mundialmente conhecidos, que permitiu à Holanda ter sempre uma selecção nacional competitiva, têm vindo a desinvestir na formação devido ao seu encarecimento e à concorrência crescente. Hoje, qualquer miúdo “bom de bola” num quintal de Joanesburgo, numa rua de Taguacigalpa ou numa praça de São Cristóvão é rapidamente referenciado por vários olheiros que trabalham para grandes empresários, para escolas de formação, ou para clubes.

O Sporting, nos últimos anos, e antes dele o Boavista, e antes o Benfica, tem dado cartas na formação. Mas o que tem ganho o Sporting com isso? Títulos? Nem por isso. Muito dinheiro? Aparentemente sim.

O objectivo primordial da formação deve ser sempre o de fabricar jogadores para a equipa principal de modo a que ela possa ser competitiva e ganhar títulos. Diz-se do actual Sporting que se mantiver a equipa que tem será campeão 3 vezes nos próximos 5 anos. A dificuldade está em o Sporting ser capaz de manter a actual equipa. Nani já foi. Outros irão. O Sporting não tem ganho títulos. Tem ganho muito dinheiro? Sem dúvida que sim. Mas o que ganhou com as transferências de Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Ricardo Quaresma e Nani não lhe chega para pagar os custos que teve com a formação de jogadores nos últimos 12 anos. Logo, o Sporting só teria ganho alguma coisa se fosse fazendo, com as vendas dos jogadores da formação, receitas suficientes para cobrir os custos de formação e, ao mesmo, tempo ganhasse títulos. Ou seja, o Sporting ganharia títulos à custa da formação e não perderia dinheiro. A selecção portuguesa tem ganho mais com a formação do Sporting que o próprio Sporting.

O maior clube do mundo em títulos europeus, e dos maiores em número de adeptos, o Real Madrid, tem escolas de formação desde os anos 1960 e é o maior fornecedor de jogadores da Primeira Liga espanhola. Todos os anos milhares de crianças e jovens, de Espanha  e não só, rumam à Nova Cidade Desportiva na esperança de se tornarem as futuras estrelas do Real Madrid. Em cada 400 apenas 1 chega a jogar na Primeira Liga. Grande parte não faz história.

O Athletic Bilbao é muitas vezes apresentado como a melhor escola de formação em Espanha. É bom lembrar que a escola do Athletic foi fundada em 1912 e que a selacção espanhola que foi aos Jogos Olímpicos em 1920 tinha 14 (em 21) jogadores do país Basco. O Athletic continua a seguir uma política de ter um plantel constituído apenas por bascos, tal como o Benfica teve durante a primeira metade da sua história. É claro que esta política tem custos. Há anos que em que a formação não rende e a equipa treme. Isso tem acontecido ao Athletic e à Real Sociedad, que aposta também sobretudo na cantera. Mas no início dos anos 1980 estes clubes foram campeões da Liga graças à sua política de formação. No final do anos 1980 e 1990, Johan Cruyft contruiu o seu Dream Team recrutando os melhores jogadores bascos.

Mas apostar muito na formação e ao mesmo tempo na importação, como fazem, por exemplo, Real Madrid e Barcelona FC, também tem custos. Nos anos mais recentes, as jovens promessas das canteras madrilista e barcelonista têm fugido para Inglaterra (Cesc Fàbregas, Gerard Piqué, Luis Garcia, Pepe Reina, Xabi Alonso, etc.).

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2 Comments »

Comment by slbcarlitos
2007-06-10 16:14:29

Corroboro em absoluto a tua opinião mas, perante isto, o que fazer? Talvez esperar que venha por aí um russo, um americano, ou até mesmo um sheik do Dubai e que estes invistam nos clubes portugueses. Talvez o exemplo a seguir seja o dos clubes ingleses que parecem querer deixar para trás toda a concorrência europeia através de investimentos por parte de multimilionários, como é o exemplo do Chelsea, Liverpool, ManUtd, West Ham, e outros.

 
Comment by peixoto
2007-06-10 19:56:28

Pois. O dilema é grande. Para já o futebol português não é suficientemente interessante, nem financeira dem mediaticamente, para esses magnatas. Se todos os clubes fossem assim nunca saíriam grandes jogadores da formação. Vê que eles, ingleses em geral, investem muito pouco em formação

 
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