O BENFICA TEM FUTURO?
A pergunta do título é retórica. É claro que o SL Benfica tem futuro. A questão está em saber que futuro nos espera, no curto e no longo prazo, num momento em que todas as esperanças acumuladas nos últimos anos parecem ter-se desvanecido. É essa a discussão que, correspondendo ao repto do JDF, lanço aqui no blog.
Desde o princípio dos anos 1990, o SL Benfica, contrastando com o seu glorioso passado, entrou em profunda agonia. Não vale a pena lembrar agora aqui todas as contingências. Para a discussão que aqui lanço vale, contudo, a pena lembrar que, desde aí, o SL Benfica foi acumulando decepções desportivas, dívidas enormes e um capital de incredibilidade. Desde aí, o SL Benfica nada ganhou de relevante e mesmo a conquista do último campeonato, com Trapattoni no comando da equipa, acabou por acontecer de um modo que tornou evidente que essa conquista não significava a entrada firme do SL Benfica nos caminhos onde os benfiquistas querem ver o seu clube. Mas pelo menos, essa conquista, permitiu responder a uma incógnita que se vinha acumulando desde o princípio dos anos 1990. Afundando-se de ano para ano, batendo num fundo cada vez mais fundo, onde seria o fundo do SL Benfica? Nos seta a zero de Vigo? No sexto lugar no campeonato? Haveria que esperar pior? Essa conquista, pelo menos, permitiu perceber que o SL Benfica já tinha batido no fundo. E com ela trouxe algumas esperanças.
Desde essa conquista, o SL Benfica não voltou a ficar nos dois primeiros lugares do campeonato e as dúvidas de que esta época, nada ganhando, possa ficar em segundo ou terceiro vão-se avolumando.
A conquista do último campeonato gerou uma espécie de bebedeira colectiva que elevou as expectativas demasiado alto. O resultado mais imediato foi a derrota, poucos dias depois dessa conquista, na final da Taça de Portugal, num ano em que o SL Benfica, a mostrar a sua aproximação aos bons caminhos, até parecia ser capaz de fazer a dobradinha. Mais a longo prazo, por efeitos dessa bebedeira colectiva, e de alguns resultados positivos conseguídos na Europa (com uma vitória histórica em Liverpool), começou a falar-se irrazoavelmente na conquista de títulos europeus.
Essas expectativas, irrazoáveis, mas atractivas para dirigentes e adeptos, tornaram-se ainda maiores esta época, quando o SL Benfica se mostrou capaz de ir ao mercado em condições em que há muito (desde o tempo em que Toni deu a volta ao mundo para comprar jogadores com um pacote de amendoins) não ia. Sobretudo porque o SL Benfica se apresentou com uma equipa jovem e promissora, estruturada numa base de jogadores experientes.
O despedimento de Fernando Santos às primeiras tremuras, a re-contratação de José Antonio Camacho (consumando paixões do Presidente e dos adeptos), o sacrifício definitivo de José Veiga, os resultados alcançados pela equipa, sobretudo jogando em casa, a fuga de Camacho, as fugas para a frente que o Presidente da Direcção foi promovendo, o assacar de responsabilidades externas e a incapacidade em assumir erros, foram gerando uma ressaca cada vez maior que se agravou com a recente derrota por 0-3, na Luz, contra a Académica.
De repente, a prometida época de sonho tornou-se num pesadelo que a maior parte dos benfiquistas já tinham afastado dos seus horizontes.
Antes de mais parece-me justo salientar que Luís Filipe Vieira carrega, ao mesmo tempo, o mérito da devolução das esperanças e as responsabilidades pelo regresso a um ponto que se julgava ultrapassado. Por ironia das coisas, aqueles a quem foi lesto a dar ouvidos, despedindo Fernando Santos e indo buscar Camacho, são exactamente os mesmos que agora pedem veementemente a cabeça de Luís Filipe Vieira. E, desta vez, são muitos mais que os tradicionais Gaspar Loureiro, Manuel Botto e António Figueiredo. Uma questão essencial para discutir o futuro do SL Benfica passa, inevitavelmente, pela presidência do clube.
Nos seus discursos irrealistas e, tantas vezes, enigmáticos, e que ensombram mesmo a razão que lhe assiste (porque também a tem), Luís Filipe Vieira, nas suas errâncias e nos seus assomos, é hoje um Presidente contestado e de credibilidade questionável. Por isso, o futuro do SL Benfica não se discute sem estas questões: Neste momento, Luís Filipe Vieira é o melhor Presidente para o clube? Há alternativas credíveis a Luís Filipe Vieira? Pensará Luís Filipe Vieira em deixar o SL Benfica não se recandidatando? Mesmo que queira continuar, a generalidade dos benfiquistas continua a encará-lo com uma opção válida?
É verdade que sem uma situação financeira equilibrada e sólida, por melhor que seja o Presidente, o SL Benfica não pode aspirar a um futuro risonho. Nesse campo, Luís Filipe Vieira tem créditos a reivindicar. Nessa medida, é justo perguntar se Luís Filipe Vieira, tendo alcançado esse objectivo, não merece, apesar dos seus erros, o benefício da dúvida? É justo perguntar se ele já teve o tempo suficiente para aprender a ser Presidente do maior clube português? Se a sua substituição por alguém, que mesmo mais competente leve tempo a aprender, não representará uma substancial perda de tempo? Mas é igualmente justo perguntar se, apesar dos seus méritos na gestão, em termos desportivos Luís Filipe Vieira não deu já provas suficientes de ser incapaz de liderar um projecto ganhador? E, nessa medida, se um cenário que, no futuro, deixe Luís Filipe Vieira na gestão da SAD e do Clube, mas longe do futebol, é possível e desejável?
A questão, obviamente, coloca-se muito para lá da presidência. Remete também para questões organizativas gerais, onde, é verdade, a questão da liderança também é fundamental. Aí, com resultados financeiros evidentes, o SL Benfica, apesar de heranças pesadas, tem dado mostras de estar preparado (em termos de serviços, de áreas de negócio e de infraestruturas) para o futuro. Contudo, mais uma vez, neste domínio, a organização desportiva parece ser o calcanhar de Aquiles do clube. A instabilidade no sector da formação, a incapacidade em delinear um projecto desportivo a prazo com a permanência de um treinador por 4 ou 5 anos, a inabilidade do anúncio extemporâneo de Rui Costa como futuro director desportivo, a manutenção de um treinador-adjunto que, sendo bom homem, não tem perfil para agarrar na equipa se for (como foi) preciso, são apenas alguns exemplos que, circunscritos por discursos irrealistas (querer organizar o clube a partir de um número de sócios irrelista), dão conta de uma organização desportiva deficiente. Assim sendo, é pertinente perguntar se o mérito na organização do clube é proporcional ao demérito na gestão desportiva? Assim como é legitimo perguntar se um mesmo homem, Luís Filipe Vieira, não aparece, globalmente, com uma imagem contraditória, capaz do melhor e de, ao mesmo tempo, ser capaz de deitar tudo a perder?
O futuro do SL Benfica também não se discute sem focarmos a hegemonia do FC Porto. E também aqui, a questão da liderança do SL Benfica aparece uma vez mais como relevante. Assim como a questão da organização, já que é nessas duas dimensões que o SL Benfica tem dado mostras de estar anos luz atrás do seu rival. Ainda que o SL Benfica se apreste, pela terceira época consecutiva, a terminar o campeonato atrás do Sporting CP, são as prestações do FC Porto que fazem recear por um futuro de sucesso para o SL Benfica. Neste domínio, pelo menos para já, Luís Filipe Vieira parece ter perdido a guerra pessoal e política em que se envolveu contra a liderança portista. Nesse ponto, está Luís Filipe Vieira no mesmo ponto em que se encontrou João Vale e Azevedo no princípio da sua queda? É possível, no médio prazo, que Luís Filipe Vieira, ou outro, consiga colocar o SL Benfica no mesmo patamar desportivo do FC Porto? Ou só uma liderança mais fraca no FC Porto permitirá ao SL Benfica equacionar um futuro ganhador?
Discutir o futuro do SL Benfica é, sem dúvida, uma tarefa que, neste momento, não deixará de ser acalorada e de suscitar visões antagónicas. Mas é uma tarefa tão urgente quanto necessária, dada a falta de confiança que o actual estado das coisas instalou entre os adeptos do clube em relação ao actual rumo e ao futuro que o clube merece.




