Há quem seja do Benfica desde que nasceu. Eu não.
Filho de pai sportinguista doente (o primeiro grande derbi que assisti foi um Sporting-Porto), morando a 350 Kms do Estádio da Luz, tinha poucas probabilidades de me tornar Benfiquista. Mas cresci nos anos 1970. Nessa altura o Benfica dominava. Tinha uma grande equipa. Tinha Eusébio, é certo. Mas eu, que me lembre, sou do Benfica desde um momento em que vi o Vítor Baptista marcar um golo do outro mundo. Já vi muitos bons golos depois desse. Mas aquele foi o golo. Lembro-me do Vítor Baptista a correr, festejando numa fúria imparável. Se não houvesse estádio, nem bancadas, nem adeptos nunca teria parado. A não ser, talvez, quando se cansasse. Se se cansava não parecia. O meu benfiquismo nasceu, acho, naquele golo, naquela corrida e naquela fúria.
Quando comecei a gostar de ver futebol, Vítor Baptista estava no final da sua carreira no Benfica. Foi, como se sabe, uma carreira de altos e baixos. Em 7 épocas, Vítor Baptista marcou 64 golos pelo Benfica. Não sei se fez muitos benfiquistas, mas quero acreditar que sim.
Muitos lembrar-se-ão de Vítor Baptista (“o Maior”, como ele se intitulava, “o rapaz dos pés de ouro”, o rapaz do brinco”), pelas suas extravagâncias ou pelos dias amargos do seu fim de vida.
É certo que Vítor Baptista será sempre conhecido por espisódios recambulescos…
O mais marcante terá sido quando, na época 1977-1978, depois de ter marcado um golo à Vítor Baptista (vitória por 1-0 sobre o Sporting), ao receber um abraço de Cavungi, perdeu o brinco que sempre usava. Nunca o encontrou, mas pôs os jogadores todos, e o árbrito, à procura do brinco. E 50 mil felizes no estádio da Luz. No final do jogo ainda disse que perdeu dinheiro a trabalhar, porque o brinco valia 12 contos e o prémio de jogo pela vitória eram só 8 contos. Ainda assim, pegou no carro, foi para a Portugália, pediu uma imperial e uma lagosta. Como estava toda a gente a olhar para ele, bebeu a imperial com um só golo e foi-se embora.
Na sua irreverência, Vítor Baptista, quando não jogava de início tinha o hábito de pegar nas suas coisas e ir embora. Dizia que ele era “o maior”. E se era “o maior” porque haveria de aceitar ser suplente? Nunca aceitou. Nas suas exuberâncias, quando a droga começou a destruí-lo, numa eliminatória europeia que o Benfica ia fazer a Moscovo (contra o Torpedo), apareceu no aeroporto vestido na desportiva, contra as regras da equipa. E lá foram, todos vestidos de igual, menos o Vítor Baptista. Como fazia frio em Moscovo (Inverno de 1977), os jogadores foram avisados para ir fazer o treino de adaptação de fato de treino, de luvas e de gorro. E foram. Mas apareceu um jogador de calções e t-shirt. No dia do jogo não quis jogar. Na partida da volta também não. Começava uma viagem sem retorno.
Vítor Baptista, que depois de acabar os treinos na Luz costumava dar umas quantas voltas ao estádio com o seu jaguar, dizia que não era por vaidade, mas sim para secar o cabelo, saiu do Benfica em 1978. Ganhava 450 contos por mês. Disse que só ficava de lhe aumentassem o salário para 650 contos e lhe dessem um Porsche Carrera. A Direcção acedeu a dar-lhe o Porsche e 550 contos. Não quis. Foi para o Vitória de Setúbal ganhar 100 contos por mês.
Vítor Baptista, no bem e no mal, será sempre uma velha glória do Benfica. Nas minhas lembranças será sempre a raíz do meu benfiquismo. Ainda hoje o vejo a correr. Imparável. Sem estádio, sem bancadas, sem adeptos.
Nesse dia, o Benfica ganhou 1-0. Golo do Vítor Baptista.
Excelente post! EXCELENTE!
Também eu não sou Benfiquista desde pequenino. Por causa do meu avô, comecei também por ser Sportinguista. Cada um tem a sua história, e um motivo único para o seu benfiquismo. Um golo do Vitor Baptista parece-me um motivo mais do que suficiente.
Encontrei esta tua entrada por acaso, numa busca pela letra da música “Rapaz do brinco” do Vitorino que ontem, a caminho de casa, ouvi na TSF. Como música não é nada de especial mas a letra, está lá tudo. Está lá o espírito livre, a raça, a rebeldia. Uma excelente homenagem que eu queria transformar em entrada no “Gordo, vai à baliza!”.
Não encontrei, mas encontrei esta história que talvez seja uma homenagem ainda maior. Fazer benfiquistas é um orgulho, fazê-lo com golos é um orgulho ainda maior.
Vou continuar à procura da letra. Se a encontrar e fizer a tal entrada, farei ao mesmo tempo um link para este teu post se não te importares.
Um abraço,
MC
http://www.gordovaiabaliza.blogspot.com
Comente by médiocriativo — 09/08/2007 @ 10:12
RAPAZ DO BRINCO
Música: Vitorino
Letra: José Jorge Letria
Eras o rapaz do brinco
Eras o herói da tarde
Driblador cheio de afinco,
Médio seguro ou trinco
Da alegria dessa idade
Eras a festa do jogo,
Com o resultado incerto,
Entre a água e o fogo,
Adeus Vítor até logo
Que a vitória andou perto.
Eras o brinco perdido
Na parcela do relvado
Onde em sonhos tidas lido
As promessas sem sentido
De um contrato renovado.
Eras o ponta de lança
Da infância sem ternura,
O campeão que foi esperança
E essa eterna criança
Sempre às portas da loucura
Foste a sombra do que eras,
A carreira interrompida,
Gazela no meio das feras,
A ruína das quimeras,
Destroço de um fim de vida.
Foste esse brinco perdido
Em grande tarde de glória
E podias ter vencido,
Mesmo vergado e rendido
Pelas traições da memória.
Foste o brinca jóia rara
Desse tempo de conquista;
A loucura sai tão cara
E se a grandeza é tão rara
Que viva o Vítor Baptista.
Comente by peixoto — 09/08/2007 @ 11:01
Como é que eu consigo falar com alguém sobre o Vitor Batista?
A pergunta é, ele ainda é vivo?
Gostaria de fazer um trabalho sobre ele.
Agradecido
Nilton
Comente by Nilton — 10/01/2008 @ 20:54
Olá Nilton, o Vitor já não é vivo. Morreu, se não me engano, em 2000, na plena miséria e esquecido pelo futebol. Tinha potencial para ser os melhores do mundo. Em vez disso foi apenas um grande jogador. Puro, genuino, insano, genial…único. Era assim o Vitor Batista.
Quanto ao trabalho se precisares de ajuda manda-me um email que pode ser que te possa ajudar.
1 abraço
Comente by Ricardo Serrado — 22/05/2009 @ 16:41
Sensibilizou-me a narrativa e os comentários. Quantos Vitores não estão a viver a amargura idêntica à de alguém que teve o mundo nos pés. Parabens a todos que me antecederam nos comentário.
forte abraço
Comente by Rui Veiga — 14/02/2010 @ 03:08