A penalização de seis jogos aplicada pela UEFA a Augustine Gilles Binya, devido à falta que originou a sua expulsão no jogo contra o Celtic de Glasgow, é injusta, desproporcional e xenófoba.
Injusta porque Binya, tendo feito uma entrada além das margens, e sendo bem expulso, não é um jogador reincidente em actos de violência, é jovem, acatou a ordem de expulsão e pediu desculpas. Tanto mais injusta que em actos passados e, seguramente, em actos futuros, numa inevitável lógica de comparação, a punição de Binya ficará como a mais exemplar entre as punições que penalizam o tipo de entrada efectuada por Binya. Tanto mais injusta, quanto Binya, se o SL Benfica for eliminado das competições europeias, ficará 10 meses sem poder voltar a jogar em competições da UEFA.
Desproporcional porque expõe a dualidade de critérios da UEFA. Não seriam precisos muitos exemplos para o demonstrar. Dou apenas um, bem recente, que me parece ser por demais evidente. Para quem não está recordado ilustro-o em imagens e em vídeo. Fica bem patente o modo como um nível de violência indescritível, num jogo oficial da UEFA, acabou em sanções bem mais leves que a infligida a Binya. David Navarro, aqui perseguido por Julio Cruz (a morder o lábio, assim como Cordoba, logo atrás dele), depois de ter abrilhantado a festa com golpes de profissional (ver vídeo), apanhou 7 meses e voltou a poder jogar em competições da UEFA em Outubro. Carlos Marchena apanhou 4 jogos. No Inter, Nicolas Burdisso levou 6 jogos, Maicon também levou 6 (comparar o que fizeram ao acto de Binya é pura ficção). Ivan Cordoba levou 3 jogos e Julio Cruz 2 jogos. Mas Binya não joga no Inter, nem no Valência. Não joga em Itália, nem joga em Espanha. Joga em Portugal e no SL Benfica. Valência e Inter estão a jogar nos seus estádios.
Binya é preto. Não é apenas negro. É um preto muito preto para uma UEFA xenófoba. Uma UEFA que, não só não pune exemplarmente actos de racismo, de claques e de jogadores, limitando-se a multas paliativas, como é ela própria xenófoba. Não se trata de vitimização devido à cor da pele de Binya. Mas se Binya tivesse outra cor, se jogasse noutro clube e noutro país, não teria apanhado seis jogos.
Apetecia-me dizer que a UEFA é uma merda. Mas não digo. A UEFA é uma anedota que sofre de amnésia selectiva e de memória de elefante: esquece o que lhe convém e torna imemorável o que bem lhe apetece (o castigo de Binya será sempre lembrado). A UEFA é um elefante numa torre de marfim. Como o infeliz que ao olhar para o céu foi atingido por uma cagada de pássaro, diria: “ainda bem que os elefantes não voam”.
