O VALOR DA MARCA BENFICA
Inspirado pelo animado post do Roberto, relativo à campanha da nossa equipa de júniores e à vitória recente sobre o Sporting, que pode ser lido neste blog em português e em inglês, e enquanto não chega a esperada e estratégica Benfica TV (ou Canal Benfica), venho hoje falar de uma das dimensões importantes do valor da marca Benfica. Designadamente da possibilidade em franquear a marca para aumentar o seu potencial em vários planos.
Durante muitos anos, sobretudo durante os anos mais amargos da história do SL Benfica, os adeptos e os sócios do Clube, aspiraram por um salvador endinheirado que viesse, com os seus milhões, salvar o Benfica. Jorge de Brito e Manuel Damásio terão sido aqueles a quem esse tipo de esperança mais foi confiada. João Vale de Azevedo carregava outro tipo de esperanças (era o nosso Papa de Avignon). A lógica dos mecenas era, como se viu, o caminho errado, cheio de quimeras vãs destinadas a esfumarem-se com o tempo, à medida que o Clube caminhava para um buraco sem fundo. O caminho certo, até prova em contrário, é o da gestão profissionalizada. Feita por indivíduos que podem até nem ser benfiquistas, mas que são profissionais no que fazem e que respondem por resultados. Este caminho conduziu o SL Benfica aos resultados positivos (difíceis de obter onde a gestão, por muito empenhada que seja, permanece amadora; veja-se o caso da Académica que ainda ontem apresentou resultados negativos de 10 milhões de euros) e ao grupo dos 20 clubes europeus que geram mais receitas. A ideia da torneira sem fim (o dinheiro de um magnata) foi substituída pela estratégia de várias fontes de receitas, umas mais importantes que outras. É aqui que surge a questão do universo Benfica, e das empresas que o compõem, e, acima de tudo, do valor da marca Benfica. Os desafios de uma gestão profissionalizada passam por diversificar as fontes de receitas e por apostar na consolidação das fontes de receita mais importantes. Daí que tenha falado acima no Canal Benfica, pois, juntamente com o naming do estádio, são duas importantes fontes de receitas que correspondem a desafios ainda não concretizados pela actual Direcção.
Empresas como a Benfica Viagens (2 milhões de euros de receitas), a Benfica Soluções Financeiras (3,5 milhões em negócios prestes a serem concluídos), ou a Benfica Seguros (com 2500 apólices) não são galinhas de ovos de ouro. Mas representam receitas seguras e certas, assegurando fluxos financeiros estáveis e crescentes. Como já disse, a criação próxima da Benfica Auto Center, da Benfica Saúde e da Clínica Benfica (especializada no tratamento de lesões desportivas) são igualmente apostas que, sem prejudicar o core business, representam novas e interessantes oportunidades. Aliadas ao naming das bancadas do Estádio (Sapo, Coca-Cola, Sagres e PT), às rendas dos espaços comerciais (Media Market e Catedral Auto) valem financeiramente mais que uma má presença na Liga dos Campeões. Aliás os contratos de naming e os contratos dos espaços comerciais cobrem o valor da dívida por pagar relativa ao novo estádio do Sport Lisboa e Benfica.
É sabido que o valor da marca Benfica nem sempre se torna efectivo de um ponto de vista comercial, limitando-se frequentemente a meras razões afectivas. É o caso, por exemplo, das escolas de formação (cerca de 40) que o SL Benfica apoia um pouco por todo o mundo, enviando material de treino (de Portugal a Londres, dos Palop’s aos EUA).
A iniciativa em curso, tendente a criar escolas de formação em franchising, pode ser vista como uma aposta interessante do ponto de vista desportivo, do ponto de vista do marketing e do ponto de vista comercial. Não é, diga-se, uma iniciativa inédita. O Sporting CP foi pioneiro a criar franquias com o seu nome, dispondo já de 14 escolinhas de formação a funcionar neste regime (6 em Lisboa, 2 na margem sul, 2 no Algarve, 2 na região Porto, 1 em Torres Vedras e 1 na Marinha Grande). Estas escolinhas Academia Sporting/Puma (é esse o nome do franchising) recebe crianças dos 5 aos 14 anos. Já o FC Porto mantém uma única escola, a funcionar no estádio do Padroense, que recebe miúdos dos 4 aos 12 anos.
O SL Benfica pretende desenvolver 50 escolinhas em franchising que, ao contrário das 40 que já funcionam em locais carenciados, visam interesses comerciais. Quem quiser ter uma escolinha Benfica, beneficiando, para além da marca, do acesso a conteúdos de formação, a estágios no ninho das águias, a contactos com os craques da equipa, etc., terá que, como em qualquer franchising, pagar uma jóia de entrada e uma propina mensal. O Franchising será gerido pela empresa Área F10.
O projecto, sendo importante do ponto de vista do marketing e da captação de talentos, não almeja ter lucros nos primeiros 3 anos, uma vez que os proveitos financeiros gerados serão canalizados para melhorar as condições das 40 escolas localizadas em áreas carenciadas. Mas, comercialmente, sem ser uma galinha de ovos de ouro, é mais um projecto que, tendo outros objectivos importantes, visa a rentabilidade. Grão a grão…
Confesso, e disse-o aqui no Blog, ao elogiar o trabalho de José Veiga no Benfica, que a saída do mal-amado me deixou com alguma apreensão. Mas Luís Filipe Vieira fez o gosto às massas e tornou a presença de José Veiga inviável. Com isso viabizou, ao mesmo tempo, o regresso do bem-amado, José António Camacho. Com a saída de Veiga faltava apenas resolver um pequeno problema (tão mais pequeno quanto os resultados e as exibições ajudavam a evidenciá-lo como grande problema): Fernando Santos. Luís Filipe Vieira apostou tudo numa estratégia em que ele mais que ninguém confia e que, sabe-o bem, a maioria dos adeptos aprova e aclama. Nesta caminhada, Fernando Santos, um acaso na história do Benfica, viabilizado apenas pela impossibilidade em recrutar Carlos Queirós, era um pequeno peão a prazo. A pergunta que fica é uma só. Mas tem resposta. Se Luís Filipe Vieira estava disposto a viabilizar o regresso de José Antonio Camacho, se Camacho, ao que parece, até viabilizou algumas das contratações do Benfica para esta época, porquê deixar a época começar e não permitir que Camacho tivesse feito todo o trabalho desde início? A minha resposta é que Camacho não regressaria ao Benfica a qualquer preço disposto a correr todos os riscos. Regressar numa condição de salvador, para reforçar a empatia com a massa associativa, num momento em que o Benfica ainda pode ganhar tudo, em que tem um bom plantel e em que até ainda pode reforçá-lo, é o ideal para Camacho. Nestas circunstâncias, Camacho pode falhar, desde que não fracasse redondamente, sem ser penalizado pelos adeptos. Se tiver êxito será aclamado e levado aos píncaros. E Luís Filipe Vieira terá acertado na sua estratégia.
Com tudo isto parece, e parece de uma maneira preocupante, que o Benfica está agora a iniciar a época. A maioria dos adeptos, animada pelas declarações do Presidente da Direcção, espera ainda, até ao fecho do defeso, mais e mais sonantes contratações que aquelas que esperava no início do defeso. Venham quantos vierem, venha Rochemback, venha Pauleta, venha Souza, venha Daniel Carvalho ou apenas rumores deles, a verdade é que o plantel não terá, nos próximos e cruciais dias, a tranquilidade que Nuno Gomes pedia. A possível contratação de Williamis de Souza Silva, sendo um desses factores de perturbação, só me faz pensar na contratação de Paulo Almeida, um fracasso avalizado por Camacho. E não digo isso apenas por Souza ter perdido a titularidade no São Paulo. Souza até é um jogador razoável que poderia encaixar neste Benfica, como Léo encaixou quando chegou. Além disso, é um jogador que o Espanhol de Barcelona tentou contratar em Maio e que alguns clubes alemães perseguiram. O seu carácter polivalente e o facto de ser um jogador experiente também ajudam. A questão é que o São Paulo não o liberta facilmente. Mas, se há algo em que Camacho me parece estar longe de ser um bom treinador (e sobre isso falarei noutro post) é a sua capacidade em referenciar bons jogadores. Nisso está bem no Benfica, pois a capacidade de prospecção tem estado ao nível de Camacho. Luís Filipe Vieira, fica também descansado. Afinal, se alguma das estrelas não render, Fernando Santos, por mais que fale daqui para a frente, ficará como o responsável dessas contratações falhadas. Afinal, Fernando Santos e Luís Filipe Vieira pareciam, salvo raras excepções, estar a fazer as contratações de mútuo acordo. Agora é demasiado tarde para Fernando Santos vir dizer o contrário. O seu ar de bem comportado e de politicamente correcto abriram-lhe as portas da saída.