Ao contrário de outros clubes, mais conotados com a luva branca (símbolo da corrupção silenciosa, sem cheiro e sem rasto), o Benfica é o clube dos luvas pretas.
Artur Semedo, realizador e actor, um ícon televisivo e mediático do Benfica, era tão conhecido pelo seu benfiquismo como pela luva preta que sempre usava na mão direita (dizia-se que, por odiar tanto a direita, tapava a mão para não ter de a olhar; dizia-se também que o fazia por superstição). Artur Semedo, fiel ao seu estilo excêntrico, defendia o Benfica nos limites do imaginável e, não raras vezes, muito para lá do imaginável. Queria morrer no dia que o Benfica fizesse anos e quase conseguiu. Morreu a 8 de Fevereiro de 2001. O Benfica colocou a bandeira a meia haste e, como era seu desejo, o funeral não foi para o cemitério dos prazeres sem antes ter dado uma volta ao antigo estádio da Luz. Arrebatador de paixões, um verdadeiro galã no cinema e na vida, politicamente incorrecto quanto baste, Artur Semedo foi sempre fiel à sua maior paixão: o Benfica.
As luvas pretas, um par delas, eram também a imagem de marca de um dos jogadores emblemáticos do Benfica. João Alves, o Luvas Pretas. Ainda vi jogar João Alves no Benfica, o jogador elegante, rápido a pensar e um artista na “folha seca”. João Alves chegou ao Benfica ainda júnior (nasceu em Albergaria) porque era um grande benfiquista. Mas João Alves nunca teve “papas na língua” e esse facto, quer como jogador, quer como treinador, sempre o condenou a uma certa errância. João Alves não é de aquecer lugares. Mau sinal para quem vai trabalhar numa área, a da formação, onde a permanência e a estabilidade são fundamentais para que os frutos apareçam a longo prazo. Espera-se que o seu benfiquismo assumido e a experiência que, entretanto, adquiriu com a sua “Escola de Futebol Luvas Pretas” sejam mais fortes que o seu estilo sonhador e, por vezes, politicamente incorrecto.
Herdou as luvas do avô, Carlos Alves (jogador do Carcavelinhos e do FC Porto), que usava as luvas pretas por superstição, desde que, jogando no Carcavelinhos, e nas vésperas de defrontar o Benfica, uma miúda de 12 anos lhe terá dito para usar luvas pretas. Não o fez por causa do calor. Ao intervalo como estava a perder, resolveu calçar as luvas. O Carcavelinhos ganhou ao Benfica e as míticas luvas pretas passaram a fazer parte da gloriosa história.
João Alves fez 141 jogos pelo Benfica, marcou 33 golos, ganhou 2 campeonatos, 2 taças de Portugal e uma supertaça. Em Salamanca, João Alves é ainda considerado o melhor jogador de sempre do clube. Em 1983, Eriksson castigou-o por chegar atrasado a um treino e não o colocou a jogar a final da Taça UEFA contra o Anderlecht. O Benfica perdeu e João Alves não gostou. Voltou ao Boavista, como já tinha feito no passado.
As luvas pretas estão no museu do Benfica. o Luvas Pretas voltou hoje ao Benfica.