A presença do engenheiro Fernando Santos no programa da RTPN “Trio de Ataque” colocou em destaque a suposta falta de uma política de comunicação no SL Benfica. De acordo com o engenheiro, a falta de um gestor de comunicação tê-lo-á exposto em demasia, o que não é o melhor para preservar a imagem de um treinador, na medida em que isso contribui para um desgaste desnecessário. A questão que Fernando Santos colocou, relativa à inexistência de uma política de gestão da comunicação institucional, é relevante e merece algum debate. Procuro fazê-lo aqui, começando por contar uma pequena história entre um engenheiro e um gestor.
Um dia, ia um homem a voar de balão quando, às tantas, percebe que se perdeu. Então, decide baixar de altitude e gritar para outro homem que estava na estrada por baixo do balão: “Por favor, pode ajudar-me? Prometi a um amigo que me encontrava com ele há meia hora atrás, mas não sei onde estou!” O homem que estava em baixo disse: “Sim posso ajudá-lo. Você está num balão de ar quente, aproximadamente a 5o metros do chão. Está entre os 38 e os 40 graus de latitude norte e entre os 56 e 58 graus de longitude oeste.” E responde o homem do balão: “Você deve ser engenheiro.” “Pois sou”, respondeu-lhe o homem cá em baixo. “Como é que sabe?” “Bem, disse o homem do balão, tudo o que você me disse está tecnicamente correcto, mas continuo a não fazer a mínima ideia do que fazer com essa informação, e o facto é que continuo a estar perdido.” Então o homem cá em baixo respondeu: “Você deve ser gestor.” “E sou”, respondeu o homem do balão. “Mas, como é que você sabe isso?” “Bem, diz o homem cá de baixo, “você não sabe onde está e nem sequer sabe onde vai. Você fez uma promessa que não tem a certeza de poder cumprir, e, ainda por cima, você está à espera que eu lhe resolva o seu problema. A verdade é que, apesar de estarmos a falar há 10 minutos, você está exactamente na mesma posição em que estava antes de nos conhecermos, mas agora parece que a culpa de você estar perdido é minha.
Esta pequena anedota sobre gestores e engenheiros permite discutir a suposta inexistência de uma política de comunicação no Benfica. Mas permite também discutir o papel de um treinador nessa política de comunicação. Voltarei a esta anedota mais abaixo.
A área das relações públicas é hoje uma área vital nos clubes-empresa, como o é na generalidade das organizações, tenham ou não fins lucrativos. Dentro dessa área das relações públicas, com maior ou menor autonomia, a política de comunicação é bastante importante. Uma política de comunicação e uma política de relações públicas têm uma forte carga institucional. O SL Benfica, por ser uma das maiores instituições tem forçosamente de ter uma política nesses domínios. Aliás, clubes como o SL Benfica, estando sujeitos a uma forte exposição na imprensa, sabem que qualquer acto, ou qualquer silêncio em relação a um boato, já é, em si, um acto comunicativo. Ficar calado parece valer muito mais que 10 mil palavras (se uma contratação não é negada é porque deve ser verdadeira – embora o SL Benfica precisasse de um gestor só para estar a negar as falsas contratações que se anunciam). Por maioria de razões, esta é de facto, como disse o engenheiro, uma dimensão que o SL Benfica não pode descurar. Mas isso não significa uma concordância minha com aquilo que ele disse no “Trio de Ataque”. Muito longe disso.
Fernando Santos, na sua dor contida, na sua compreensiva revolta interior, e na inteligência que lhe reconheço, lançou uma farpa (diga-se que justa e bem medida) a Luís Filipe Vieira, tocando, ao fazer uma comparação com Jorge Nuno Pinto da Costa e com o FC Porto, onde mais dói ao Presidente do Benfica. O que Fernando Santos disse é que muitas vezes, ao contrário de quando treinava o FC Porto, se viu a falar sozinho, quando seria de esperar uma presença institucional que o protegesse a ele treinador e aos jogadores. Ao dizer isso, e cobrindo o seu ponto de vista com a capa de “crítica construtiva”, Fernando Santos tocou num dos pontos onde Luís Filipe Vieira tem actuado com maior fragilidade. Fê-lo sabendo que isso é algo que incomoda o Presidente do Benfica e que, Luís Filipe Vieira tem consciência que essa é uma área onde ele, por muito que faça, tem dificuldades em atingir um nível aceitável de actuação.
Já referi várias vezes aqui, mas também aqui, e ainda aqui, as capacidades oratórias de Luís Filipe Vieira (posso dizer, sem ser engenheiro, eufemesticamente, que também são críticas construtivas. Até porque penso que um país construído por engenheiros seria uma desgraça). O meu ponto de vista é que Luís Filipe Vieira tem dado muito ao SL Benfica. Que, como toda a gente, comete os seus erros. E que, neste plano, as capacidades comunicativas, apesar de terem vindo a melhorar, não são o seu forte.
Considerando o futebol dos nossos dias e a maneira como os clubes de futebol se organizam, olhando para a política de comunicação a que Fernando Santos se referia, saliento três vertentes.
Os presidentes dos clubes, em muitos casos, assumem eles próprios as despesas dessa política comunicativa. Fernando Santos chamaria a isso o modelo presidencialista e apontaria como expoente máximo Jorge Nuno Pinto da Costa. Do meu ponto de vista, com Luís Filipe Vieira este modelo não é o que mais o favorece, embora ele se venha esforçando por o cultivar e desenvolver. Na minha perspectiva, Luís Filipe Vieira, com maior ou menor intensidade, continua a precisar de melhorar a sua capacidade comunicativa em cinco dimensões: quando fala, o Presidente do Benfica parece querer falar de tudo, tem alguma dificuldade em concentrar-se no essencial; quando fala, Luís Filipe Vieira tem de contextualizar melhor o seu discurso e perceber que uma coisa é estar a falar para sócios na inauguração de uma casa do Benfica e outra é estar a dar uma entrevista à SIC, à RTP ou à TVI em horário de prime time; quando falar, e porque estrategicamente seria importante distanciar-se da geração dos Pintos da Costa e dos Valentins, o homem do leme tem de habituar-se a fugir ao jargão banal do futebol; quando fala, e esta é para mim a dimensão mais problemática, o homem de bigode farto e de orelha franca, tem de sustentar um padrão de confiança e de credibilidade, pois ser tão taxativo nas suas afirmações e depois ter de arranjar desculpas só o descredibiliza a ele e à sua Direcção; por último, e o Contra Informação apanhou-o bem, Luís Filipe Vieira, quando fala, fica excessivamente preso a tiques, tem uma tendência monocórdica (quase tão má como a de Filipe Soares Franco) e uma propensão (que lhe virá de um certo desejado para imitar Jorge Nuno Pinto da Costa) para disparatar quando não tem nada para dizer. A isso associa a impressão do casmurro que, contra todas as evidências, quer sempre ficar por cima.
Noutros casos, menos comuns em clubes grandes com forte exposição mediática, como é o caso do SL Benfica, há lugar a uma profissionalização, surgindo um gestor da política de comunicação a que se referia Fernando Santos. O SL Benfica tentou, sem sucesso, essa via com João Malheiro. Não sendo uma crítica a um benfiquista de sete costados, pois acho que fazia esse trabalho muito bem, a verdade é que este modelo de profissionalização não parece o mais adequado para o SL Benfica, dada a sobreexposição mediática do clube. Quando esta figura existe, ela é quase obrigada a falar, mesmo quando as evidências demonstram que o silêncio seria a melhor opção. João Malheiro foi a vítima deste modelo experimental.
Na terceira vertente, para voltar ao exemplo da anedota do engenheiro e do gestor, é o próprio treinador que assume as despesas da política de comunicação. Diga-se que este exemplo é muito comum em clubes com uma forte exposição mediática, onde o treinador, por muito que existam profissionais da comunicação, será sempre o primeiro e o último responsável. Cito dois exemplos que considero paradigmáticos: José Mourinho e Luís Filipe Scolari..
José Mourinho e Luís Filipe Scolari partilham uma ou outra característica. São ambos, ou sabem ser, treinadores e oradores arrogantes quanto baste. Sobretudo com os jornalistas. São também, ambos, estrangeiros nos países onde treinam. Fernando Santos, nunca soube, nem nunca quis manter esse nível de arrogância com os jornalistas. Nao se trata de ser indelicado ou inoportuno. Trata-se de saber marcar uma posição num universo em que a exposição mediática é propícia a provocações, em que parece haver cada vez mais ‘jornalistas’ especialistas na matéria ou ao serviço de determinadas causas.
Recordando Ivone Silva, e a Olívia patroa e a Olívia costureira, diria que, na anedota acima, estamos perante um monólogo entre o Fernando Santos engenheiro-treinador e o Fernando Santos gestor-manager.
O Fernando Santos gestor-manager é o homem que se perdeu sozinho a tentar navegar num balão, talvez por querer fazer algo que gostaria mas que, ao contrário do que pensava, as suas competências não lhe permitiam fazer com segurança. A dada altura começa a voar cada vez mais baixo, à espera de encontrar uma solução para a sua agonia. O Fernando Santos engenheiro-treinador é um homem competente nas suas análises. Tecnicamente sabe onde está, mas se tiver de comunicar esses conhecimentos ao Fernando Santos gestor-manager tem dificuldade em fazê-lo com a emotividade e a paixão que permitam resolver o problema. Sabe que está à deriva, mas tem dificuldade em reconhecê-lo e em encontrar a solução. Está meia hora atrasado, mas não desce do balão para ir a pé. Por isso, continua a voar cada vez mais baixo à espera da salvação.
Fernando Santos tem razão. No curto período de tempo em que, na época 2007-2008, esteve à frente do Benfica foi mais um gestor-manager, responsável pela comunicação, que um engenheiro-treinador. Falava cada vez mais, mas, como o gestor do balão, cada vez parecia mais não saber onde estava nem para onde ia. Mas isso não o impedia de fazer promessas (afinal ainda haveria de ser aplaudido de pé; e até foi, mas não pelas razões que imaginara), parecendo estar à espera de um gestor de comunicação que lhe resolvesse os problemas. Como o homem do balão, com o tempo a passar, Fernando Santos estava cada vez mais na mesma. E assim chegou à situação em que, tendo-se perdido como manager, tornou evidente que a culpa era sua enquanto treinador. Não admira, por isso, por alguma razão que possa ter, e por muita deslealdade que possa evocar, que tenha ficado a falar sozinho.